
ODE À ANA MARIA
SCHALLY
Neste espaço, que assinará
daqui pra frente, o presidente de honra da ASSEX presta homenagem
a uma ex-aluna do IEDE.
Pedi
ao Schally, meu afilhado de casamento, autorização para publicar
o Memorial que ele escreveu quando da morte de sua esposa.
Autorizado, trago este texto que foi lido em Boston, na cerimônia
de cremação, e na Tulane, em uma cerimônia de homenagem. Aqui
no Brasil, o documento (traduzido pela família de Ana) foi
lido no Rio e em Fortaleza, por ocasião de missas realizadas.
Trata-se de um texto lindo, na minha visão, escrito com o
coração por um homem cerebral notável. Ao lerem, creio que
concordarão comigo que a publicação no Jornal da Assex justifica-se,
pois é a carta de um Prêmio Nobel de Medicina a Ana Maria
Comaru Schally, ex aluna do IEDE.
Luiz César Póvoa
"Minha querida esposa não está mais dentre nós. Seus amigos
brasileiros e eu geralmente a chamávamos Aninha. Gostaria
de expressar meu profundo sentimento por todos vocês terem
vindo a este memorial.
Encontrei Ana Maria pela primeira vez em 1974, no Rio de
Janeiro, Brasil, quando o diretor da clínica em que ela trabalhava
a pediu para apresentar o trabalho que eles estavam fazendo
com meus análogos de LH RH em mulheres com amenorréia hipotalâmica.
Fiquei muito impressionado com seu excelente trabalho, sua
inteligência e beleza. Um emocionante romance começou, que
culminou em casamento 2 anos depois. Depois de 28 anos de
uma feliz convivência juntos, as ligações entre marido e mulher
são muito difíceis de quebrar.
No momento em que eu entrei no seu quarto da UTI do Hospital
Brigham, em Boston, depois de sua morte, percebi o quanto
ela significava para mim e o quanto eu havia perdido. Ela
estava muito bonita e seu semblante transmitia paz, deitada
naquela cama. Eu entrei e saí do quarto sete vezes dizendo
adeus e beijando sua testa e suas mãos. Eu não podia acreditar
que ela havia morrido. Não conseguia aceitar a sua partida.
Estou profundamente ferido, físico e emocionalmente, com
a sua inesperada passagem depois de 28 anos de um casamento
maravilhoso. Ana Maria era a esposa perfeita, companheira,
colaboradora e minha melhor amiga. Eu e muitos amigos dela,
de vários países, sentiremos muito a sua falta.
Embora
nós tivéssemos um casamento idílico, isso não impedia brigas
ocasionais. Ela não seria brasileira nem mulher se não brigasse.
Eu sempre tive e continuo tendo um excelente relacionamento
com a família dela, particularmente seus cinco irmãos vivos
e sua irmã.
Ela era uma endocrinologista de altíssima reputação, autora
de inúmeros artigos médicos e sua perícia em endocrinologia
era muito admirada. A 35 anos atrás, quando ela ainda estudava
medicina no Brasil, ela diagnosticou seu próprio nódulo na
tireóide e marcou a cirurgia com seus professores. Infelizmente,
somente parte da tireóide foi removida e não toda a glândula.
Foi a recorrência desse carcinoma papilífero tiroideano que
a levou à morte.
Nenhum médico amava mais a medicina que Ana Maria. Nenhum
médico era mais dedicado a seus pacientes e à profissão que
Ana Maria. Ela importava-se comigo, com sua grande família
no Brasil, com seus pacientes e com sua equipe do laboratório.
Sua personalidade calorosa e sua bondade serão sempre lembradas
por sua família, colegas, pacientes e incontáveis e maravilhosos
amigos em todo o mundo.
Ser uma excelente profissional não a impedia de ser muito
feminina e extremamente elegante. Ela possuía muito bom gosto
para roupas, decoração, sapatos e bijuteria, que ela comprava
com o próprio dinheiro.
Nós viajamos muito pelo mundo, juntos. Durante essas viagens,
ela dava palestras sobre seu próprio trabalho de pesquisa,
incluindo análogos de LH-RH, câncer de próstata, hiperplasia
prostática benigna, endometriose e leimiomas uterinos. Ela
ministrava suas palestras em inglês, espanhol e, é claro,
português; suas palestras eram muito bem recebidas por platéias
nacionais e internacionais.
Em junho de 2004, 3 meses antes de sua morte, nós estivemos
em Paris, França, para o simpósio internacional, celebrando
as contribuições dos análogos de LH-RH para endocrinologia,
urologia, oncologia, ginecologia a pediatria. Ana Maria amava
Paris. Foi lá que o nosso romance floresceu e onde noivamos.
Nesse momento, com comemorações especiais a respeito do trabalho
cientifico e clínico em análogos de LH-RH, incluindo os dela
própria, e com o presidente francês Jacques Chirac conferindo
a mim a legião de honra, resplandeceu de orgulho. Esses foram
alguns dos momentos mais felizes de sua vida.
É trágico perder alguém para o câncer, let alone a magnificent
woman who herself was advancing the field. Minha dor em perder
Ana Maria foi ampliada pelo fato de ter, por mais de 25 anos,
me envolvido no desenvolvimento de novos métodos de tratamento
de câncer, e eu fui incapaz de salvá-la. Nós devemos continuar
lutando contra os inimigos que reclamaram a vida de Ana Maria.
Esses inimigos são o câncer e a nossa ignorância da sua cura,
porque assim seria possível entender a química da vida - conseqüentemente,
o câncer.
É muito difícil ser deixado sozinho após tantos anos de felicidade
com Ana Maria. É muito difícil achar o certo a fazer. Eu tenho
procurado consolo e conforto continuando meu trabalho na pesquisa
do câncer. Eu acredito ser isso que ela gostaria que eu fizesse.
Ela me disse para ser forte. Meus amigos por todo o mundo
me dizem para ser forte.
Eu agradeço a todos vocês por honrarem Ana Maria nesse memorial.
Sua ajuda, compaixão e amizade são muito importantes para
mim. Ana Maria se foi, mas sua presença e memória viverá em
nossos corações.
Muito obrigado.
Andrew Victor Schally voltar
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