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PROCÓPIO DO VALLE - UM SOLDADO DA SBEM (PARTE I)

A carta a seguir - enviada ao Dr. L.C. Póvoa pelo Dr. Procópio do Valle, em agosto deste ano - é, pelo seu conteúdo, um documento histórico fundamental à memória da SBEM.

Meu caro amigo Luiz César
Dr. Luiz Cézar Póvoa Mencionando a matéria assinada por você e publicada no Jornal da ASSEX, junho/2006, número 50, congratulei-o pela sua pertinácia de tantos anos, cuidando de obter todo tipo de informações sobre a história da endocrinologia no Brasil. Face algumas sugestões que dei, pediu-me que o fizesse por escrito.

Há alguns anos, perguntou-me você se eu decidira fundar a SBEM antes ou depois da presença do professor Hans Sellye, especialmente convidado a dar um curso no HSE, e eu lhe respondi, apenas, que foi anos antes. Agora lhe esclareço melhor: foi exatamente quando cursava o quarto ano de medicina, em 1942. Nessa época eu conseguira permissão para estagiar, como estudante, na quinta cadeira de Clínica Médica da Faculdade de Medicina da Praia Vermelha, da antiga Universidade do Brasil, funcionando no Hospital Estácio de Sá e sob a direção do Professor Heitor Annes Dias.

Um Mestre de Verdade
Foram poucos meses que lá passei, pois fui convocado para servir, como soldado, no Exército Brasileiro. Mas o suficiente pra conhecer um mestre de verdade. Annes Dias chegava ao hospital às sete horas e, de avental branco, era visto em grande atividade. Já havia criado as Sessões Clínico-Patológicas, trazendo da Itália o Professor Luigi Bogliolo. A Clínica caracterizava-se pela ordem e dedicação ao ensino, aos alunos e aos pacientes.

Vi em Annes Dias o mestre que há tanto procurava. Creio que foi ele quem, pela primeira vez no País, criou uma área destinada ao atendimento dos diabéticos, incluindo uma enfermaria destinada aos mesmos. *Em sua chefia colocou seu filho - Cássio Annes Dias. Ainda estudante, compreendi que este poderia ser o primeiro passo para o estudo da Endocrinologia entre nós e perguntei: " por que não fundamos uma Sociedade de Endocrinologia?"

Veio a guerra e eu fiquei 20 meses servindo como soldado - sargento - enfermeiro do Hospital Central do Exército. Diplomei-me em Medicina, em 1944, não me esqueci do trabalho de Annes Dias. Getúlio Vargas fechou, brutalmente, o Hospital Estácio de Sá e o entregou à Polícia Militar do Rio de Janeiro. Amontoou todos os serviços da FNM no restrito espaço existente no Hospital Moncorvo Filho. ***E, claro, que para lá foi a Quinta Cadeira de Clínica Médica. Annes Dias, infelizmente, faleceu precocemente. Substituiu-o o Professor Luiz Amadeu Capriglione. Com a mesma têmpera do antecessor, porém com uma maneira de trabalhar diferente. Era mesmo "grosso". Mas, com rara habilidade, soube cercar-se de assistentes de primeira qualidade. Por isso, em pouco tempo, José Schermann tornou-se seu Chefe de Clínica: grande cultura, enérgico, ético - um exemplo!

Tratamento Moderno
Capriglione manteve a enfermaria de diabetes, entregando-a à Clotilde Souto Maior, sua assistente do Hospital da Gamboa. Clotilde, sem jamais ter ido ao exterior, dava um tratamento moderno ao seus pacientes e conseguia, entre outros êxitos, preservar ao máximo os membros inferiores dos diabéticos, reduzindo o número de amputações. Isto antes dos antibióticos e da tecnologia semiótica atual.

Nessa época, a endocrinologia no Brasil - no Rio de Janeiro, em particular - era bócio em profusão, obesidade e diabetes. E, de novo, vem à minha mente que era preciso reunir esforços para constituir uma especialidade muito mais ampla. Jovem médico, sem qualquer expressão, resolvi "segurar a bandeira" e levá-la à frente. Consegui o apoio de José Schermann e de uns poucos colegas.

Já com a decisão de fundar a Sociedade de Endocrinologia do Rio de Janeiro, precisava-se de um Presidente. Schermann me disse: "mãos à obra". Não tive dificuldade de encontrar um homem criado perfeitamente para o que queríamos: o Professor Waldemar Berardinelli, já então fundador do Instituto de Endocrinologia da Santa Casa. De passagem pelo corredor, abordei Clementino Fraga Filho, que nos hipotecou seu apoio. Tomei coragem e fui falar com o mestre Berardinelli. Em verdade o "Berar" era um humanista, um professor nato. Respondeu-me: "Procópio, aceito o convite, desde que você seja o secretário-geral". Trabalho iniciado, precisávamos crescer e os contatos feitos com os colegas de São Paulo permitiram, de fato, a criação da SBEM. Já constituídas por duas Regionais, outras se seguiram.

A Terceira
Exerci, durante 18 anos, a liderança da SBEM, quando a entreguei a Luiz Cesar Póvoa. Hoje (SBEM fundada em 1/9/1950), decorridos 56 anos, a nossa é a terceira maior Sociedade de Endocrinologia do mundo, com 21 Regionais, uma excelente Revista, a ABEM, entre muitos outros objetivos alcançados.

Recentemente, estão havendo tentativas de excluir o nome "Metabologia" da nossa Sociedade. Luiz César e Ricardo Meirelles já protestaram, por escrito, sobre este fato. Permita-me um esclarecimento: quando fundamos a SBEM, a Endocrine Society era líder no mundo. Era, a nosso ver, um nome não abrangente. Na época eu pensava que, em verdade , a Endocrinologia nada mais era que a ciência do metabolismo e que as clássicas glândulas de secreção interna representavam, apenas, o começo de um conhecimento, pois a "sabedoria do organismo" - descrita por Walter B. Cannon em seu livro "The Wisdom of the Body", publicada em 1932 - só se realizava graça a uma perfeita homeostase entre seus componentes. Assim, o que se deveria destacar era a ciência do metabolismo, do qual a endocrinologia representava uma de suas expressões.

Em aula magna realizada no HSE, em 1952, Bernardo Houssay, prêmio Nobel de Medicina, destacou este aspecto, elogiando porque chamávamos nossa Sociedade de Endocrinologia e Metabologia.

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