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ESBOÇOS DA HISTÓRIA DA ENDOCRINOLOGIA PEDIÁTRICA

O texto a seguir foi apresentado pelo Dr. Luiz Cesar Póvoa na cerimônia de abertura do XXXV Encontro Anual do IEDE, em dezembro de 2006.

Dr. Luiz Cézar Póvoa Esta subespecialidade, conforme normas da SBEM, abrange as fases que vão do período neonatal até o término do crescimento e da puberdade, e os fatos relacionados com as glândulas endócrinas, expressados em doenças congênitas, distúrbios do crescimento, hirsutismo, obesidade e diabetes, entre as mais freqüentes.

Procurei, como é do meu feitio, a presença da criança na História da Endocrinologia. Foi extremamente difícil, para meu espanto, detectar esta presença em textos, iconografias e, até mesmo, na Bíblia e no Talmud.

A criança ou feto eram citados sempre como participantes nas gestações ou partos. A medicina chinesa nos mostra, em suas belas imagens, as alterações da mulher e seu feto, relacionando-as com as estações do ano, assim como os partos feitos sempre por outras mulheres, pois era proibido a nudez feminina em frente ao médico. Os sintomas eram apontados em bonecas, desde simples, de pano, até ricas, de porcelana.

No Egito encontramos Akenaton e Nefertiti colocando sua criança ao sol, o que em muito tempo se constitui na helioterapia. Por coincidência, o Dr. Arthur Moncorvo Filho, em projeto dele mesmo, constrói belo edifício em um areal perto do Campo de Santana, no Rio, e ali instala um hospital pediátrico para helioterapia. Era difícil andar pelo areal desde o Campo de Santana, daí a rua ser chamada Rua das Boas Pernas. Por nova coincidência, hoje é a sede do IEDE.

Cesarianas
As medicinas grega, egípcia e incaica também se preocupavam muito com a relação feto/ gestante. Nem nas hoje chamadas operações cesarianas eram relatados cuidados especiais com o feto. A origem deste nome é questionada, atribuída ao parto de Julio César, que havia sido feito cirurgicamente.

Plínio, o melhor, afirma que tal procedimento só era feito, e o era de há muito, quando da morte da mãe, o que não aconteceu com Aurélia, que viveu muitos anos ainda. Ascléfio, Deus da Medicina, teria nascido assim, porém seu pai, Apolo, ordenou a Artenius que matasse a ninfa Corinus, suspeitando de sua infidelidade. Terá sido nosso deus mitológico um bastardo?

O primeiro relato crível é o de uma cirurgia feita na Suíça, em 1500, pelo castrador de porcos Jacob Nuffer em sua esposa que, posteriormente, teve outros filhos em partos normais. Mais uma vez, a história nos revela que a origem dos cirurgiões passa ao longo das escolas de medicina.

A alimentação das crianças na China não parecia ser um ato prioritário, haja vista esta gravura, onde o idoso era alimentado antes da criança faminta. Também a imagem triste das crianças só era usada para ilustrar catástrofes e desgraças, como a fome e as epidemias.

Crescimento
Em 1632 são editados os primeiros livros sobre estudo do crescimento, até então problemas secundários. Os homens eram baixos. Ricardo Coração de Leão, guerreiro, tinha 160cm.

As crianças com anomalias ao nascer, com precocidade puberal, eram motivo de manifestações artísticas, sobretudo quando nobre era a descendência dos modelos. Assim as irmãs da Casa Castela, a princesa nobre com Cushing, diferiam em muito do primeiro caso estudado em 1832.

No entanto, a criança que mais marcou neste campo foi o filho de Julia Pastrana, em 1853, mexicana portadora de um quadro de "hipercosis lanuginosa universalis" que era explorada por seu marido, dono de circo e cujos corpos estão embalsamados no Museu de História Natural de Malmoe, Suécia.

No século XV e XVI começa na Inglaterra a se valorizar o carinho e o amor que as crianças deveriam ter, não só em sua família, como na comunidade, para seu crescimento saudável físico e mental. Finalizando a parte histórica do crescimento, vamos a um pequeno exercício. O Pequeno Polegar, que tipo de nanismo teria? E os 7 anões da Branca de Neve? Não nos esqueçamos do Peter Pan, que fugiu de casa para continuar criança.

Novas manifestações mórbidas, como a obesidade e o diabetes, são motivos de manifestações artísticas. A cirurgia infantil entre os judeus, não nos esqueçamos mais uma vez suas origens, prescindiu médicos na cirurgia da fimose, em princípio feita pelas próprias mães com pedras, depois com instrumentos rústicos e até hoje sempre por cirurgiões.

Terminando esta introdução histórica, é fundamental que a criança seja tratada com amor em sua alimentação, em seu lar, tentando neutralizar a cínica e cruel realidade de um mundo que se diz civilizado.

Com Amor, sem Omissões
Não posso deixar de aproveitar este momento para reiterar, sob ponto de vista ético, o que a História nos mostra. A escola inglesa, que só há pouco aboliu a palmatória, inclui o amor como medicação fundamental para criança. Será ético o que Le Corbusier fez na Índia, enquanto o protocolo de Kioto não é aceito? Não podemos nos omitir, pois ao nosso ver o crime de omissão é tão grande quanto o de colaboração. Sem duvida é cada vez mais valido este provérbio.

O IEDE participa do desenvolvimento da Endocrinologia Pediátrica não só sendo centro de referencia no Estado para o Teste do Pezinho, centro formador exemplar não só para o Rio, mas também para o Brasil, graças ao trabalho de Judy Bottler e Ricardo Meirelles, assim como ambulatório e residência especializados.

Nos USA, com os achados da bioquímica e do controle metabólico, John Howland, Eduard Parks e James Gamble, na Johns Hopkins; Allan Butter, na Harvard; Daniel Barrow, em Yale; Trung Mcquerre, em Rochester, agruparam-se em torno da clinica particular de Lawson Wilkins, em 1935, para o estudo nas doenças endócrinas. Muito antes, em 1946, aos 52 anos Wilkins larga sua clínica privada e vai em tempo integral para Johns Hopkins.

A Lawson Wilkins, sociedade de endocrinologia pediátrica, só foi fundada em 1971, e em 1980 o Conselho do Diabetes Infanto-Juvenil era instalado na ADA. Em 2002 havia 72 programas de treinamento nos USA e Canadá. Hoje, no Brasil temos 8 programas em processo de credenciamento e 28 titulares.

No entanto, somente mais recentemente a Endocrinologia Pediátrica se une, estabelecendo consenso (como o de 2004) sobre cetoacidose diabética infanto juvenil, assinado pela Lawson Wilkins Pediatric Endocrinology Society e a European Society for Pediatric Endocrinology. É hora do Brasil, diretamente ou através da SLEP, se associar a esses tão úteis procedimentos.

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