
MEMÓRIAS DA PRAIA VERMELHA
A um ano da comemoração dos 200 anos da antiga Faculdade Nacional de
Medicina da Universidade do Brasil, hoje Faculdade de Medicina da UFRJ, na ilha
do Fundão, ao ler um artigo de Carlos Lacaz quis trazer à tona sentimentos sobre
a Casa que formou os endocrinologistas do Rio, fundadores da SBEM.
Os médicos diplomados naquela Casa, desde os tempos do Império, receberam
de seus mestres o que a Medicina da época lhes podia oferecer, mas - é preciso
ressaltar - saíam sempre com excelente formação moral e humanística, sabendo
sempre ressaltar a sacralidade da vida humana. É importante ressaltarmos sempre
que o lado ético deve ser coisa sagrada. A prática médica não se apóia somente em
bens materiais, mas sobretudo em valores intangíveis, como o amor à profissão, sua
dedicação à humanidade, o respeito e o amor ao próximo, sem esquecer o senso de
responsabilidade para com a Sociedade e o País.
Nossos mestres são figuras que em sua grande maioria estão todos deitados, numa
outra dimensão, dormindo profundamente. Mas, são os mortos que governam os
vivos, pelo fato surpreendente da morte gerar alguma coisa nova, pois a semente
caindo na Terra crescerá e dará muitos frutos. Este é o sonho do mestre. Somente a
lembrança daqueles que partiram permite que se compreenda o mistério da morte
e o próprio sentido da vida.
Em 1808, o Príncipe Regente cria a Escola Médica Cirúrgica, por sugestão de frei
Custódio de Campos Oliveira, cirurgião-mor do Exército e da Marinha, instalado no
Hospital Real Militar no morro do Castelo, que havia sido Colégio dos Jesuítas.
O velho casarão da Santa Luzia de 1844 a 1847, localizado no Largo da Misericórdia,
era um hospital onde clínicos, cirurgiões e parteiros iam sendo preparados
para as lides da profissão até que,em 22 de maio de 1916, era lançada a Pedra
Fundamental do novo edifício na Praia Vermelha, inaugurada em 12 de outubro
de 1918 pelo então diretor, gênio da Medicina, Aloísio de Castro, que com vozes
de júbilo dizia: “As fontes de tradição de nossos mestres vão inspirar o espírito novo
desta nova casa”. Prosseguira ainda o mestre, dirigindo-se aos corpos docente e
discente. “A vós, calma no porvir, para corresponder às esperanças dos que hoje
vos saúdam, preparando tal futuro onde a nova Faculdade se impera por sua força
serena, crescendo com a memória”.
Infelizmente esta casa não mais existe, foi-se um pouco de nosso passado, patrimônio
cultural médico do Brasil. É lamentável que isto tenha ocorrido.
Os povos que esquecem o passado perdem a consciência de seu próprio destino.
Cumpre à juventude médica a obrigação de cultivar uma severa tradição de nossa
Medicina e, sobremaneira, de nossa especialidade. Somos uma especialidade em
progressiva ascensão, a 3ª do mundo, e estamos entrando na bibliografia universal
com nossas características e nosso contingente científico próprio.
A estes mestres do passado, nossa homenagem repassada de carinho e saudade. Bendita, pois, a escola que armou tantos cavaleiros com ideal Samaritano.
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