
RIO, 400 ANOS DE MEDICINA
Devido à falta de documentos médicos fidedignos,
é difícil se estabelecer o início da
Medicina nesta cidade, até mesmo porque este conceito
evoluiu muito. O que poderia existir quando as naus portuguesas
tocaram as águas de nossa baía, não se
sabia. A Medicina Portuguesa do século XVI foi moldada
por conhecimentos dos árabes, judeus, da tradição
greco-latina, que formaram os ensinamentos de Frei Gil de
Santarém, Pedro Hispano e Velasco Taranta.
O nosso sistema hospitalar, à semelhança do
português, foi criado pela evolução das
albergarias, gafarias, hospitais e misericórdias, que
a premência das doenças e epidemias forçou
a instalação.
No entanto, a medicina portuguesa não se transfere
para cá, pois a presença de um ou outro médico
é impotente para transplantar o edifício complexo
de um sistema médico. Havia tão somente as práticas
ritualísticas e pajelanças de um selvagem nos
primeiros degraus da evolução humana. Assim,
nada da chamada medicina erudita portuguesa chegou até
nós.
No “Tratado Descriptivo do Brasil”, de 1587, Gabriel
Soares de Souza abordou, entre outros tópicos, a prática
da feitiçaria dos índios, seus hábitos
sexuais, suas idéias de parentesco, suas concepções
de morte e ritos funerários. Havia também um
recurso terapêutico que daria nascimento, com o tempo,
a uma profissão paramédica definida, a dos sangradores.
Logo em seguida a Santos, SP, foi fundada a Santa Casa de
Misericórdia do Rio de Janeiro, prestando à
cidade inestimáveis serviços até hoje.
Rocha Pitta, em “História da América Portuguesa”,
trata do cultivo das ervas medicinais da flora brasileira
com uma concepção nacionalista e fitológica
desta terapêutica, que sustenta até hoje, ao
lado das farmácias e drogarias modernas, as “floras
medicinais” para a fabricação caseira
dos cozimentos, chás, infusões, cataplasmas
e banhos de descarga.
O mesmo autor descreve a primeira epidemia de “bexiga”,
em 1666, que, vindo de Pernambuco, devastou o litoral carioca,
onde a varíola se instalaria como primeira doença
contagiosa da cidade. De imediato, a ela se associaram as
febres palustres, as do grupo tifo-paralítico, cólera,
peste bubônica e febre amarela.
Os hábitos alimentares dos índios eram pouco
tranqüilizadores para os brancos, pois cultivavam um
fino canibalismo com requintado gosto antropológico.
Jean de Sery conta que ouviu um índio dizer para outro
na Praia Aquada dos Marinheiros, hoje Flamengo, sobre um descuidado
grupo de franceses que vinha do Morro da Viúva (que
ainda não era da Viúva, mas Lerife): “aí
vem nossa comida pulando...”.
Obs: Adaptado do anexo de capítulos da "História da Medicina no Brasil", Pedro Nava - Eduel Editora - 2001
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