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“O IEDE NÃO ME DEIXOU”

Muitos amigos e solidariedade marcam as lembranças de
Olga Grincenkov
.

Vivo o momento presente – estou aprendendo a não correr para o futuro e a deixar o passado onde está. Mas me pedem para olhar para um pedaço da vida, e descubro que este pedaço é presente. Abro as comportas de lembranças e, depois, o difícil é fazê-las parar de jorrar.


Cheguei muito antes de chegar

Olga GrincenkovEra o início de 1969. Recém aprovada no vestibular da UFRJ, deveria ser submetida a um exame médico para o ingresso na Faculdade de Medicina.

Munida da solicitação do exame, lá fui procurar o n° 100 da Rua Moncorvo Filho. Antes acostumada ao pequeno espaço da então pacata Muriaé, MG deixada para trás em 1968 – para perseguir o sonho de ser médica (sonho acalentado desde os 5 anos de idade, quando, ao ver mamãe melhorar de um mal-estar após conversar com seu médico ao telefone, sentí que seria aquela pessoa – a que melhorava as pessoas até do outro lado do telefone) e depois viciada em fazer o percurso – Largo do Machado (onde morava com os tios Wellington e Astrides) – Copacabana (onde cursava o pré-vestibular no Curso Miguel Couto), encontrar um endereço no labirinto de ruas do centro do Rio era uma aventura, felizmente coroada com sucesso.

Entrei no prédio onde funcionava o IEDE. Fui examinada numa sala pequena, no lado direito do corredor, pelo educado Dr George Sadicoff. E fui aprovada no exame médico – o que me permitiu começar a vida universitária. Que é um sonho e um pesadelo. Algumas coisas que nos parecem sem pé nem cabeça, como, por exemplo, um professor que é tão apaixonado pelo assunto, que usa as duas mãos para descrevê-lo no quadro negro, com tal velocidade, que não nos dá tempo de acompanhar. Alguns conceitos que acreditamos nunca necessitar – e anos mais tarde nos vemos usando na prática diária. Um não acabar de rostos novos, de alegrias e preocupações, acelerando o passar dos dias, o correr da vida.

E o aparecimento da Dóris Rosenthal. A Dóris da fisiologia, a Dóris da tiróide. Falando, segura, como é, da captação de iodo, dos MIT e DIT, das tri e tetraiodotironinas e despertando, sem imaginar, a paixão pela endocrinologia.

Naqueles idos da Praia Vermelha, as disciplinas de clínica médica da UFRJ eram espalhadas pela Santa Casa de Misericórdia, Hospital São Francisco de Assis e Hospital Moncorvo Filho. Fui para a Terceira Cadeira de Clínica Médica, regida pelo Prof. Luiz Feijó, que, não por acaso, funcionava na Rua Moncorvo Filho, nº 90, vizinha ao IEDE.

A proximidade com o IEDE fortaleceu a paixão pela endocrinologia. Conheci Arnold Preger – médico, professor, depois colega e hoje amigo – dançarino dos equilíbrios ácido-básicos e compensador das acidoses diabéticas. Ouvi o Professor Francisco Arduino, de voz baixa e educada, mostrando como se conhece e se trata o diabetes. E fui apresentada aos ovários policísticos pelo Neidson Miranda. E conheci a doença de Cushing, brilhantemente apresentada pelo Professor Jayme Rodrigues (que veio a falecer no dia da minha formatura).

Depois disso, nem o tentador convite de um professor de gastroenterologia para trabalharmos em seu consultório foi capaz de me afastar da especialidade escolhida. E a presença intimidadora dos mestres José Schermann, Jayme Rodrigues, Luiz César Póvoa e Francisco Arduino entrevistando os candidatos às poucas vagas do curso de especialização, querendo saber o porquê da escolha, apenas reforçou a vontade de estar ali.


1975. Cheguei ao IEDE.

Chegamos, pois, da turma de 1974 da UFRJ viemos Isio Schultz (verdadeiro cientista),  Marina Giacomelli (inteligente, estudiosa, brilhante mesmo), Ronaldo Ribeiro dos Santos (também mineiro, também inteligente, amante de jazz), e Rosa Rita Martins,  a Rosa da Genética, a tia Rosinha dos meus filhos, a Rosa amiga/colega/irmã.

E nos juntamos aos colegas mineiros – Adelaide Andrade, Victor Eurípedes, Henrique Zuba, ao alagoano – Francisco Freire (falecido recentemente), à piauiense – Nilda Trindade, à carioca Célia Regina Pierantoni, à maranhense Bernardete Salgado – se esqueci alguém é peça pregada pela memória!

E nos misturamos aos que já estavam - Edna Pottes, Henriqueta Almeida, Rosilda Vaz, Guilherme Póvoa, Manoel Faria, Eduardo Pimentel...E eram tantos os modos de falar, que, pela maneira, já sabíamos não só de que região, mas também de que estado era cada um.

A geografia do IEDE era: à direita do corredor, Radioisótopos, (Dóris Rosenthal, Jacques Fridman e  George Sadicoff) e, à esquerda, os ambulatórios: Diabetes, Triagem da Endocrinologia, Hipófise-Supra-renal e Gônadas (H/Sr/G), e Tireóide.
Aconteceu de atender o telefone do HSrG falando -"Gônadas", e ouvir o Luiz César, do outro lado da linha – "de quem?"

O começo foi assustador. Já não éramos estudantes universitários. Éramos médicos, formados, com um diploma que nos permitia exercer a medicina em todo o território nacional, com responsabilidades próprias da profissão. Mas éramos alunos, aprendizes de uma especialidade envolvente de todo o corpo. E o não entender, não aprender logo na primeira explicação, pelo menos a mim sempre foi motivo de auto-crítica, pois achava que não me era mais permitido falhar.

Os professores, estes nos traziam informações e formações. Cada um com seu jeito de ser, com seu modo de ensinar, com sua peculiaridade, plantando, a cada dia, uma maneira de colher um dado de anamnese, um sinal no exame clínico, de escolher um exame complementar adequado e necessário – quando vejo hoje a quantidade de exames de que não dispúnhamos: Ultrassonografias, Tomografias e Ressonâncias, dosagens hormonais sensíveis, mais valorizo aqueles que me ensinaram a examinar o doente, para que ele me mostre, nos dados de história e nos sinais do exame físico, qual é a doença que o aflige.

Dr Schermann, que analisava cada ficha feita por nós, apontando as falhas, mas elogiando os acertos. Que chamava as mulheres de "cri-cri", pois, se não tinham problemas com "cri"anças, tinham com "cri"adas.

Arnold Preger, que passa a segurança de dizermos –até mais ver –ao paciente, sem que lhe tenhamos prescrito qualquer medicação. E Álvaro Machado, Antonio Carlos  Bonaccorsi, José Carlos Cabral de Almeida, Luiz César Póvoa, Maria Orlanda Marques de Pinho, Maurício Barbosa Lima, Maria Lúcia Fleuis de Farias, Ricardo Meirelles, e Amanda Athayde, a querida Amanda, que me levou para o seu consultório onde pude iniciar a clínica particular, a amiga que viajou comigo para tantos congressos, e que me emprestou o ombro quando as lágrimas me sufocavam.

Com cada um aprendi a enxergar as trofinas hipofisárias, os hormônios de cada glândula, vi cada hormônio casando com seu receptor celular, e seus efeitos brotarem. Aprendi o respeito, a postura, a ética, o trato com os colegas e com os pacientes.


Nossa vida no IEDE começava cedo

Dr Schermann sabia a hora em que cada um de nós chegava. E nos cobrava pontualidade. Reunia os alunos às 8h das quintas-feiras, para analisar as fichas dos pacientes – criticava, apontava as falhas, e também elogiava os acertos. Ainda às 5ªs tínhamos a sessão clínica, freqüentada por todos nós, alunos, e pelo corpo clínico. Quinta-feira era o dia de aprendizado e de companheirismo.

Às quintas-feiras, então, víamos o (então temido) Luiz César Póvoa; o sempre-presente, figura que se confunde com a própria instituição, Dr Raul, e mais o Pimentel da Radiologia, o Guilherme da Patologia, o Rubens Esquenazzi da Cardiologia. E cruzávamos com a Cléia Francalani, do laboratório. E nos intervalos, nos juntávamos para um café na D. Lea, ou íamos ter com a Regina, na Biblioteca, à cata de algum artigo interessante.

Interessante, aliás, eram as reuniões das terças-feiras, à noite, na casa do (por esta época já não temido) Luiz César, quando 5 ou 6 alunos levávamos um artigo resumido para discutirmos – "éramos a nossa internet"!

O mestrado foi uma continuação natural da especialização e foi um período de convivência intensa com a mente brilhante e a simplicidade cativante do Dr Hélion Povoa Filho. Aceitando orientar minha tese, nos reuníamos ora no IEDE, ora na LIGHT, ora no seu laboratório. Olhar para o Dr Hélion já mostrava que seu pensamento girava constantemente, com idéias e mais idéias, que resultaram nos inúmeros trabalhos por ele realizados.

Quanto trabalho teve a Dóris, nesta ocasião. Querendo levar ao orientador um trabalho bem arrumado, aluguei várias vezes o tempo dela, que teve toda a paciência de ler e reler a introdução do meu trabalho. E só lá pela sétima ou oitava introdução tive coragem de juntar a papelada para apresentar ao "Helito"
E, no dia da defesa, o Dr Hélion ficou calado e, só depois dos trabalhos terminados, veio me abraçar e dizer que seu silêncio foi para permitir que os aplausos fossem só meus.

Recebi os aplausos, guardei-os no baú, e pensei que a minha jornada ali acabara. Não havia mais justificativa para uma ex-aluna, não funcionária, freqüentar o Hospital. Mas uma providencial greve prolongada dos residentes fez com que o Governo do Estado contratasse alguns médicos, o que me transformou em membro do corpo clínico do IEDE – e em outubro de 1978 passei a transmitir aos alunos novos o que tão bem me haviam ensinado. E passei pelo Crescimento, pela Genética, pela Tiróide (alguns ex-alunos ainda hoje se referem a mim como a "Olga da Tiróide").

E engravidei do Alexandre, hoje Educador Físico e escritor– e do Rodrigo – hoje estudante de Psicologia e pintor/escultor/músico.

Tive, como diretores, o Luiz César, o Maurício Barbosa Lima ("não fume, estou respirando"), novamente o Luiz César ("não respire, estou fumando"), e, finalmente, o Ricardo Meirelles.

Em 1992, a violência no Rio começou a aumentar, o que fez brotar em mim a vontade de proporcionar aos meninos um pouco da paz bucólica que envolvera a minha infância. Assim, em janeiro de 1993, com o coração apertado, deixei o IEDE e vim para Muriaé. Assumi o Serviço de Endocrinologia do Hospital São Paulo, secretariei e presidi o Centro de Estudos de lá, secretariei e presidi a Sociedade Médica de Muriaé.
E, em 2004, durante uma viagem, cruzei com um caminhão no momento em que sua carga estava tombando. E segurei a carga com o meu rosto... Foi quando o IEDE voltou à minha vida – Amanda Athayde, querida amiga e irmã, que agitou quem podia para me socorrer, Ricardo Meirelles, que foi procurar o Sérgio Lessa para arrumar minha pálpebra, Maurício Barbosa Lima, que me abriu as portas do CTI do Hospital da Lagoa e o – nas palavras do oftalmologista José Edmar Gonçalves – "Anjo da Guarda", Luiz César Póvoa, que me tomou pela mão e me conduziu ao maravilhoso artista Ricardo Cruz, responsável pela devolução do meu rosto.

Em cada congresso, cheia de alegria abraço e sou abraçada por colegas e ex-alunos. E me sinto IEDE.

Fui lembrança das alunas de 1982 no Encontro Anual do IEDE de 2007.

E hoje estou naquela fase da vida meio tranqüila demais. Sou perita-médica do INSS, continuo chefiando a Endocrinologia do Hospital São Paulo. Faço auditoria para a Secretaria de Saúde. E vejo pacientes no consultório ( há cerca de 1 mês recebi uma paciente de uma cidade próxima - encaminhada por um residente atual do IEDE).

O IEDE não me deixou.


Cheguei, antes de chegar.
Saí, mas continuo.




Associação dos Ex-Alunos do Instituto Estadual de Diabetes
e Endocrinologia Luiz Capriglione (ASSEX - IEDE)
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