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Por Leonardo Boff
O PhD E A EMPADA - CLAUDIO TADEU E DANIEL RIBEIRO
O GLOBO- SEÇÃO OPINIÃO, 1° CADERNO, PAG 7, 09/12/1996

Com a mão na maçaneta, preparava-me
para abrir a porta de meu laboratório, em um
dos mais produtivos departamentos científicos
do Instituto Oswaldo Cruz, quando fui atropelado
pela pergunta:
— Vai de quibe fresquinho, Claudio?
Voltei-me e conferi a impressão, constituída
em décimos de segundos, de que a voz
do vendedor ocasional de salgados na hora do
almoço era mesmo a de um colega. PhD em
patologia experimental, tentando aumentar
seu magro orçamento.
Transtornado diante de tão desconcertante
constatação, sento-me para escrever algumas
linhas de análise desta triste situação. Decido
torná-las publicas.
Perguntei certa vez a um colega visitante
estrangeiro quais carreiras eram mais valorizadas
e mais bem remuneradas em seu país.
A resposta foi de uma lógica contundente:
“A que estivermos precisando no momento:
engenheiros mecânicos, enfermeiros ou carvoeiros.”
No Brasil, temos que decidir se precisamos
ou não dos cientistas e tecnólogos.
Se não precisamos é necessário que todos
saibamos: se, ao contrário, pensamos que são
necessários, temos que protegê-los.
É antiga a idéia de um plano de carreiras
que protegesse a ciência e a tecnologia (C&T)
no país através da formalização de ambiente
institucional estimulante ao mérito e ao progresso
acadêmicos.
Uma ilustração do sucesso dessa estratégia
é oferecida pelo Conselho Nacional de Pesquisa
Científica (CNRS) e Instituto Nacional de
Saúde e Pesquisa Médica (Inserm), instituições
francesas dotadas de um corpo de cientistas
pelo país, avaliados periodicamente de acordo
com critérios nacionais, e lotados em instituições
(próprias, universitárias, hospitalares e outras)
que albergam laboratórios credenciados,
também avaliados regularmente. No Brasil, um
modelo semelhante é adotado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnologia
(CNPq) com as chamadas bolsas de
produtividade em pesquisa acessíveis a cientistas
de quaisquer instituições que aceitam ter sua
produtividade e seu desempenho acadêmico
avaliados a cada dois anos. Esta estratégia que
adequadamente aprimorada poderia se constituir
no ponto de partida do verdadeiro Plano
de C& no país tende a minimizar os efeitos da
postura de aumento, comum nas instituições
de pesquisa-que consiste em dotar padrões de
excelência e cobranças rigorosas de produção
e desempenha remunerando os pesquisadores,
entretanto, com baixos salários.
É de fato razoável pensar que a carreira de
pesquisador, com suas exigências intrínsecas
de esforços, disciplina e dedicação, deveria ser
apoiada em bases permanentes pelo Estado.
Desta forma, um plano de carreiras em C&T,
que ordenasse os salários em patamares dignos,
em nível nacional, poderia estimular o
processo de valorização da carreira e constituir
possibilidade atraente para jovens talentoso
no momento da escolha pelos que ingressam
na universidade.
Sem dúvida, dentro desta ótica, a definição
de um tal plano era urgente e podemos pensar
que duas eram as alternativas para sua criação.
A primeira delas, talvez mais natural no nosso
entender, através da análise da vocação individual,
criando-se um plano que se fundamentasse
na definição de “quem faz o quê?”, na
natureza da atividade que o indivíduo exerce
(“ele faz pesquisa ou tecnologia?”) e na avaliação
individual com base no desempenho
e na produção científica (“ele faz isso bem”).
Uma segunda alternativa, recheada de um imbatível
discurso de que “todas as atividades
são necessárias para a pesquisa” “a vocação
e a atividade individuais são decorrentes do
objetivo maior da instituição”, confundiria
carreira com lotação e enquadramentos das
“Instituições de C&T”. Esta foi a alternativa
escolhida pelo Ministério da Ciência e
Tecnologia. E assim, através de um poderoso
lobby, que aliou diretores e sindicalistas em
uma aliança profana, abençoada e costurada
pelos setores mais corporativistas e cientistas
do funcionalismo publico, garanti-se a aprovação
de um plano demagógico.
A burocracia do setor de C&T, diante
da ameaça de sucateamento e do estigma de
inoperância e incompetência que começava a
pairar sobre a cabeça funcionalismo público,
delineou a possibilidade de criar cargos sem
identidade, específicos de algumas instituições
(e que é analista de C&t? Transformar motoristas
e almoxarifes e “auxiliares ou assistentes
de C&T” não obedece a mesma lógica que
faria do copeiro da policia um policial?) a
mecanismos de “antlisonomia” (porque um
contador – fala-se analista de C&T – do IBGE,
por exemplo, passa a valer mais do que
um dos Ministérios da Agricultura?). Quando
aceitamos que um profissional passe a valer
mais unicamente em função de sua lotação
em uma instituição, não estamos na verdade
constituindo um elemento importante de desorganização
do Estado?
Não estamos dando a ele um passe-parlout
e criando uma nova sorte de reserva de mercado?
(Ninguém, que aí já não esteja, entra
nas instituições do clube.)
Mas não há nenhuma dúvida que denunciar
tal absurdo é expor-se automaticamente
ao rótulo de elitista. Será? Talvez então devamos
– ao invés de enxergar na idéia de criação
de um plano de C%T um mecanismo protetor
de carreiras desassistidas cronicamente pelo
Governo – lutar pela valorização do serviço
publico como um todo, com melhores salários
para todos os funcionários e reconhecendo as
varias especialidades aí existentes. Curiosamente,
os que usualmente vociferavam, classificando
de odiosos os privilégios, não fizeram
nem uma coisa nem outra, mas viram no planouma
oportunidade de criar jurisprudência
a muitos. Não parece tão coerente quanto a defesa de um projeto ecológico de preservação
de baleias que incluísse também os elefantes.
Igualmente mamíferos, e não menos importantes?
Assistimos, assim, ao nascimento de
uma nova “visão de mundo” que considera
que “elitista é aquilo ou aquele que privilegia
os que estão acima de mim; justo é todo o
privilégio que me inclui e corporativismos é
a luta dos outros privilégios”. E o que é um
plano que reivindica diferenciação salarial para
as instituições de um “clube”?
Em vez de protegê-los, o plano, já apelidado
de “mata-cientista” pelo jornalista Ell
Gaspari, engessou os salários de 2.300 cientistas
em uma bota excessivamente pesada para
avançar com 28 mil funcionários na folha e o
seu objetivo maior fracassou. Com o resultado,
ao invés de estimular para as instituições
envolvidas em C&T, com remuneração digna
dos profissionais com atividades específicas
desta área, assistimos ao sacrifício daqueles
que efetivamente determinam o perfil da instituição
e que acabaram menos remunerados
do que seus colegas universitários.
Evidentemente, precisamos de salários decentes
para todos: almoxarifes e motoristas,
contadores e cientistas; mas não é possível que
pesquisadores e tecnologistas – bases para o
discurso populista e pretexto para um plano
demagógico – fiquem onde estavam... agora só
mais pobres... brevemente menos numerosos.
Hoje o Ministério da Administração e da
Reforma do Estado (Maré) finalmente aponta
na direção da revisão do enquadramento dos
funcionários do Plano de C$T e da correção
dos abusos antes que sejam efetivados. Mas
se o objetivo inicial do plano, de se criar carreira
estável que se configure como alternativa
atraente e digna, não for contemplado,
só nos restará esperar o dia em que receitas
de empadinhas farão parte dos currículo de
pós-graduação.
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