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A ASSUADA DOS HORMÔNIOS BIOIDÊNTICOS
por Ricardo Meirelles

Por que toda essa celeuma em relação aos hormônios bioidênticos?

Ricardo Meirelles Em primeiro lugar, cumpre esclarecer que a palavra "bioidêntico" não existe, nem no Aurélio, nem no Houaiss e, tampouco, no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras. Não deveria, portanto, sequer ser empregada. Como, entretanto, já figura em inúmeros artigos publicados na literatura médica internacional, mais cedo ou mais tarde deverá ser dicionarizada.

É preciso, então, definir hormônios bioidênticos: são aqueles cuja estrutura molecular em nada difere dos produzidos pelo organismo humano. A tiroxina, o 17 beta estradiol e a testosterona são bioidênticos. Não confundir com hormônios naturais, que seriam aqueles produzidos por animais, como os estrogênios equinos conjugados, ou plantas, como os fitoestrogênios. O fato de serem provenientes da natureza não lhes confere identidade com os hormônios humanos. Uma terceira categoria seriam os hormônios sintéticos, inventados em laboratório, que detêm algumas, mas não todas, as propriedades dos hormônios humanos que procuram imitar, mas não compartilham sua estrutura química. Este não é um termo muito preciso, pois os hormônios bioidênticos também são produzidos por síntese laboratorial, a partir de diversas matérias-primas.

Em síntese, "bioidêntico" se refere à estrutura química e "natural" à origem do hormônio. Não são vocábulos intercambiáveis.

O fato de ser bioidêntico não o torna sempre a melhor opção de hormonioterapia. Em alguns casos o hormônio bioidêntico é o único utilizado terapeuticamente, como a tiroxina, que desbancou a tireoglobulina porcina, outrora única opção disponível. Em certas situações clínicas, o hormônio sintético se mostra superior ao bioidêntico, como é o caso dos análogos da insulina ultra-rápidos e de ação prolongada, que são preferíveis para alguns pacientes com diabetes mellitus.

O problema é que alguns propalam estar oferecendo uma "nova" forma de tratamento, alegando que os hormônios bioidênticos são "isentos de riscos" e que permitem a "modulação hormonal" individualizada. Apregoam, ainda, que os produtos manipulados em farmácias magistrais são superiores aos produzidos industrialmente. Os objetivos são claramente comerciais, o que se torna evidente pelas vistosas propagandas veiculadas nos meios de comunicação. O uso de hormônios bioidênticos não é "novo", sendo prescrição rotineira dos endocrinologistas há décadas, nem "isento de riscos", pois qualquer ação terapêutica pode se acompanhar de eventos adversos. A individualização do tratamento, agora chamado de "modulação hormonal", também não é prerrogativa de ninguém, sendo ensinada a todos os médicos desde os bancos das faculdades. Por fim, dizer que os produtos manipulados são superiores aos industrializados não tem nenhum fundamento científico, uma vez que os laboratórios farmacêuticos sofrem uma fiscalização e um controle de qualidade muito mais eficiente do que as farmácias magistrais.




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