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Por Luis Cesar Póvoa
"O que nos ensinou José Alencar"
José Gomes Temporão, 59 anos, Professor da Fiocruz, ex-ministro da saúde do governo Lula.
A recente morte do nosso querido vice-presidente deixou o país consternado. Figura política e pessoal ímpar, José Alencar nos últimos anos acometido de grave enfermidade, teve sua condição de saúde acompanhada de perto por todos os brasileiros. Sua determinação, paixão pela vida, altivez diante da dor e do sofrimento, tornou-se exemplo para todos nós pacientes que fomos, somos ou seremos. Também para os médicos foi exemplo, não apenas para aqueles que acompanharam de perto sua via-crucis ou que cuidaram dele durante este período; mas para muitos outros que perceberam neste processo um mestre que nos ensinou muito, que nos aconselhava e que com seus olhos brilhando nos dizia que sim é possível ter esperança, que sim é possível vencer a morte mesmo que por um curto período.
Em 2009 nosso José Alencar foi convidado para dar a aula magna de abertura dos cursos de pós-graduação do Instituto Nacional de Câncer (INCA) no Rio de Janeiro. Diante de cirurgiões e oncologistas de grande experiência e qualidade, alunos e profissionais de saúde, nosso Zé falou de sua dor particular, detalhou sua experiência com a medicina e os médicos, expôs sua intimidade sempre com altivez, perspicácia e sem perder o bom humor. Mais ainda, reafirmou as iniciativas do INCA em relação ao cuidado humanizado.
Perdemos um grande brasileiro.
Um acontecimento que nos permite uma reflexão sobre o direito à saúde em nosso país. Na luta contra o câncer, nosso Zé foi atendido pelos melhores médicos, operado nos melhores hospitais, teve acesso a medicamentos de alto custo e até mesmo experimentais. Tal padrão de qualidade dificilmente está acessível a tempo e a hora ao brasileiro comum. Este fato era comentado com frequencia pelo vice-presidente, mostrando com clareza seu grau de consciencia sobre essa situação de exceção.
O sub-financiamento crônico que asfixia o SUS desde sua origem, reserva apenas para os muito ricos o acesso pleno e ilimitado a todos os avanços da ciência médica. A insuficiência de recursos financeiros expõe cotidianamente ao desamparo e a riscos a grande maioria dos brasileiros que dependem exclusivamente da saúde pública. E expõe também a riscos e constrangimentos éticamente dolorosos, os médicos e demais profissionais de saúde.
Entretanto nossa constituição assegura a todos os brasileiros o direito à saúde em seu sentido mais ampliado e atribui ao Estado a responsabilidade pela garantia do acesso universal. A morte de José Alencar portanto também nos serve de alerta para a persistencia de iniquidades intoleráveis no acesso ao direito à saúde. Que seja para todos. Sem distinção.
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