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ANOREXÍGENOS – INCOMPREENSÃO E PRECONCEITO
por Ricardo Meirelles

Ricardo MeirellesÉ extraordinário como o preconceito em relação à obesidade transcende os limites das relações sociais e contamina o pensamento científico. Ninguém questiona que nas doenças crônicas, como dislipidemias, diabetes, hipertensão arterial, hiperuricemia e outras, a primeira medida terapêutica é a adoção de hábitos saudáveis e, se isto não é suficiente para resolver o problema, deve-se prescrever medicação. Quando chega a vez da obesidade, que também é uma doença crônica e contribui para todas as citadas, muitos acham que os medicamentos são desnecessários.

Uma das maiores dificuldades para seguir um plano alimentar adequado é a sensação de fome que as pessoas sentem ao se defrontarem com uma dieta restritiva. Não há dúvida de que um dos fatores responsáveis pelo aumento de peso é uma disfunção dos centros do apetite e da saciedade. Para uma parcela significativa dos obesos, o uso de medicamentos de ação central é indispensável para conseguir alguma mudança de comportamento em relação à comida.

Surpreende que a Anvisa, apesar de todas as evidências em contrário, insista na intenção de cancelar o registro de todos os remédios que atuam nos centros hipotalâmicos do controle alimentar. A diretriz sobre tratamento farmacológico da obesidade, que faz parte do Projeto Diretrizes, apoiado pelo Ministério da Saúde, foi redigida por mais de uma dezena de especialistas reconhecidos pela experiência no tratamento da obesidade e autores de inúmeros trabalhos de pesquisa versando sobre o assunto. Este texto, que respeita os ditames da Medicina Baseada em Evidências, estabelece claramente os princípios em que se devem nortear os médicos para a prescrição desses medicamentos e foi apoiado por seis sociedades médicas da área clínica. A Anvisa, entretanto, preferiu se orientar por uma nota técnica para cuja elaboração não contribuiu nenhum médico diretamente envolvido no tratamento da obesidade.

Apesar de querer dar a impressão de que estaria disposta a analisar com isenção as argumentações a favor e contra a proibição dos anorexígenos, convocando reuniões, audiência pública e painel para discussão do assunto, a Anvisa, na realidade, se mostra absolutamente preconcebida. Isso fica claro quando cria um Hotsite, em sua página na Internet, para divulgar apenas as posições dos que se colocam a favor do cancelamento de registro, com o apoio de entidades totalmente desvinculadas da assistência clínica ao portador de sobrepeso ou obesidade.

Antes da realização do Painel Técnico Internacional sobre inibidores do apetite, em junho deste ano, a Anvisa preparou 15 questões que deveriam ser respondidas pelos debatedores, de modo a subsidiar sua decisão final. A SBEM e a ABESO responderam cabalmente a todas as questões, com base em trabalhos científicos, demonstrando que os benefícios dos anorexígenos superam os eventuais riscos, desde que prescritos com critério. Esperemos que este arrazoado científico seja suficiente para que a Anvisa compreenda a necessidade de manter no mercado os parcos recursos farmacológicos de que se dispõe para auxiliar no tratamento da obesidade.




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