ECOS DO CONGRESSO EUROPEU DE DIABETES (EASD 2011): CÂNCER DE PÂNCREAS E DIABETES
Por Rosane Kupfer
"Existem mais de 20 estudos clínicos em andamento
associando Metformina a drogas antineoplásicas no
combate ao câncer" (Pollok, EASD).
Um simpósio para não ser esquecido, em um ginásio lotado, com
palestras de alta qualidade, abordou a relação entre diabetes
e câncer. A incidência e a mortalidade do câncer de pâncreas
parecem estar aumentando. Apesar do diagnóstico e tratamento terem
melhorado, somente 4% dos pacientes tratados viverão 5 anos após o
diagnóstico. Essa tão complexa relação necessita ainda ser mais bem
compreendida, mas importantes descobertas já estão sendo feitas. A
seguir um resumo do que pude captar.
Edwin Gale relembrou que 95% dos CA de pâncreas são adenocarcinomas
e que o DM2 é fator de risco, além das pancreatites crônicas
hereditárias e alcoólicas, o tabagismo, a idade avançada, a obesidade e a
história familiar entre outros. Ao diagnóstico geralmente já se encontra
em estágio avançado, com icterícia indolor, com cerca de 3 cm de diâmetro,
75% localizados na cabeça do pâncreas e 50% com metástases.
Deve-se estar atento para casos novos de Diabetes pois entre 40 e 50%
dos pacientes com câncer de pâncreas tem o diagnóstico de diabetes
menos de 3 anos antes.
O adenocarcinoma ductal é a neoplasia mais comum do pâncreas
(95% dos casos) e também a mais mortal. A origem deste carcinoma
é um precursor neoplásico conhecido como PanIN (Pâncreas Intraephitelial
Neoplasm). São lesões microscópicas (<5 mm) e portanto não
visíveis em métodos diagnósticos de imagens. Uma série de genes tem
sido relacionados como responsáveis pela herança genética do câncer de
pâncreas porém não existe ainda consenso para estudos em familiares que
levem a programas de triagem e prevenção. Isto deve ser feito inicialmente
com uma boa história familiar colhida pelo médico. A patogênese seria
a soma da susceptibilidade genética associada à influência ambiental.
No caso da obesidade, a secreção aumentada de citocinas inflamatórias
tem sido implicadas. Alguns estudos mostram que a hiperglicemia não
estaria relacionada a um risco maior deste tipo de câncer.
Edwin Gale encerra levantando um questionamento: vale a pena
investigar câncer de pâncreas em pacientes com DM2? Afinal 0,8%
dos indivíduos com DM2 com mais de 50 anos desenvolvem câncer
de pâncreas em 3 anos. Deixou no ar esta dúvida.
M Pollak, o segundo palestrante abordou como o Diabetes e seus
tratamentos influenciam o risco de câncer. Relembrou que a associação
entre DM e câncer de pâncreas chama a atenção desde a publicação de
um primeiro estudo em 1914. Como exemplo da influência de hormônios
no câncer, citou o de mama. A mediação hormonal vai além da
influência dos esteróides e como candidatos a mediadores hormonais
citou: IGFs, Leptina, Adiponectina e Citocinas Inflamatórias. Lembrou
que quando foi clonado, o receptor de insulina foi considerado como
da família dos oncogenes. Citou também um estudo mostrando que
a inanição protege do risco de câncer e que a evolução para a morte é
mais comum no paciente obeso, com câncer de próstata.
Entrando especificamente no tratamento do diabetes e sua influência,
citou o artigo de Libby et AL, Diabetes Care 2009; 32:1620
como uma das maiores evidências quanto a prevenção de câncer em
pacientes diabéticos em uso de metformina. O principal mecanismo
antineoplásico da metformina é a ativação a AMP-Kinase, levando
a inibição da formação e do crescimento tumoral. Além disso, pode
também "bypassar" a AMPK e agir por outras vias, aumentando seu
potencial no tratamento antineoplásico.
A metformina faz parte da abordagem anticâncer cujo objetivo
também é atingir o metabolismo das células cancerosas, inibindo seu
crescimento ou levando a sua apoptose. Com base neste racional teórico,
ela tem sido testada em associação a outras drogas antineoplásicas em
estudos clínicos. Em indivíduos com dieta altamente energética, a metformina
reduz a captação exagerada de FF-2 fluoro-2-deoxy D-glucose.
Isto não ocorre em dietas não energéticas. Como exemplo, Pollak citou
que a metformina induz apoptose de células de mama cancerosas, inibe
a fosforilação oxidativa e aumenta a glicólise nas células cancerosas
hepáticas, reduzindo a produção de ATP.
Na medida em que em os trials com metformina sejam publicados
imagino que este tema ganhará cada vez mais espaço em nossos congressos,
beneficiando por fim nossos pacientes. |