A batalha dos anorexígenos
por Amélio F. Godoy-Matos
No último artigo para este jornal, antecipávamos o debate que ocorreria na Academia Nacional de Medicina. O debate
aconteceu, com o Dr. Ricardo Meirelles e eu próprio defendendo a permanencia dos medicamentos e a representante
da ANVISA, Sra. Curi (ela é farmacologista), argumentando em favor da retirada. Argumentar é força de expressão.
Em verdade, ela apenas se restringiu a relatar a cronologia dos acontecimentos. Nós, por outro lado, mostramos as evidencias
científicas. Por exemplo, mostramos um estudo realizado na Nova Zelândia, de coorte prospectiva, entre os anos de 2001 a
2004, com todas as prescrições de sibutramina. Assim, com um n=15.686 pacientes para eventos fatais e 9471 para os não
fatais, utilizando métodos intensivos de follow-up, a mortalidade por todas as causas foi de 0.13 (95% CI 0.05- 0.27) para
100 tratamentos/anos de exposição. A taxa de morte CV foi 0.07 (95%CI 0.02- 0.19) 100 tratamentos/anos. A conclusão
dos autores foi: "O risco de morte CV nessa POPULAÇÃO GERAL de pacientes com sibutramina foi menor do que tem
sido relatado em outras populações de obesos. O resultado deste estudo sugere que uma melhor avaliação do perfil risco-
-benefício da sibutramina é, agora, necessária". Ou seja, quando a população é adequada, diferente da população do SCOUT,
não é significativo o risco. Foram mostrados também estudos que demonstram que antinflamatórios não hormonais têm
mais risco de desfecho cardiovascular do que os relatados para a sibutramina. Os antipsicóticos atípicos, da mesma forma,
aumentam o risco de diabetes, de cetoacidose e de morte. Mostramos ainda que entre as principais razões para atendimento
de idosos em serviço de emergência nos USA não constavam os agentes antiobesidade, mas 1/3 destes atendimentos tinham
como causadores 3 medicamentos comuns: digoxina, warfarina e insulina. Cumprimos o nosso papel e demonstramos que os
nossos medicamentos não são mais perigosos (na verdade são menos) do que outros de uso comum. Obtivemos claramente
o apoio dos acadêmicos que lá estavam.
Agora, no momento em que escrevo, aguardamos pela resolução. Os boatos são de que a sibutramina seria preservada, mas
os outros seriam retirados. Não há fatos ou evidências que mostrem maior risco com os catecolaminérgicos, que eles preferem
chamar de anfetamínicos. Vamos, porém, aguardar o desenlace para podermos emitir juízo de valor.
Conhecimentos em incretinas não param de evoluir
Enquanto estamos estagnados em relação aos agentes antiobesidade, com nada de novo no horizonte, os conhecimentos crescem
vertiginosamente na área da fisiopatologia do diabetes tipo 2, em especial na área dos incretínicos. Um dos mais interessantes,
que reputo como o mais importante desse ano, foi a descoberta por um grupo europeu publicada recentemente no Diabetes.
Estes autores demonstraram que a DPP4 é uma proteína que se expressa e é liberada pelo tecido adiposo. Além disso, ela está
aumentada na obesidade, na gordura visceral e se correlaciona com todos os fatores da síndrome metabólica. Assim, deixemos
os próprios autores definirem por si próprios com o título "Dipeptidyl Peptidase 4 Is a Novel Adipokine Potentially Linking
Obesity to the Metabolic Syndrome"( Lamers D et al. Diabetes 2011 published ahead of printing).
Nesse campo, 2 novos medicamentos entram no mercado brasileiro este ano: um análogo do GLP-1 (Liraglutide) e um
inibidor da DPP4 (linagliptina). Ainda esperamos pelo menos 2 novos análogos de mais longa duração para os próximos anos.
Serviço de Metabologia emplaca mais 2 publicações
Como antecipado no início do ano, nosso serviço publicou um artigo nos ABE&M (Serum retinol binding protein 4 is
not decreased in congenital generalized lipodystrophy: a case series. Amélio F. Godoy-Matos, Rodrigo O. Moreira,Renata
MacDowell, Izidro Bende. Arq Bras Endocrinol Metab. 2011;55(4):279-83) e submeteu um outro: A New Method for Body
Fat Evaluation, Body Adiposity Index, is Useful in Patients with Familial Partial Lipodystrophy Amélio F. Godoy-Matos,
Cynthia M. Valerio, Rodrigo O Moreira, Patrícia B Mory, Regina S Moises. Posso dizer que está aceito no Obesity, embora
possa queimar a língua!
É sempre difícil publicar. É um esforço enorme, notadamente porque não dispomos de verbas para pesquisa, temos que dividir
nosso tempo entre inúmeros afazeres e o crivo dos revisores é sempre um desafio. Mas vamos chegando lá, sempre contando
com a ajuda de muitos e esperançosos de poder produzir um "poquito más"! Aliás, por falar nisso, estamos finalizando a fase
de coleta de dados de um estudo que será uma grande contribuição (queremos crer) para o entendimento da fisiopatologia do
diabetes, se os resultados forem concordantes com a hipótese. Mas, ainda não podemos dizer o que é. Segredo de polichinelo...
Até breve! |
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