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Dosagem de tireoglobulina por cromatografia líquida e espectrometria de massas em tandem na monitoração do câncer diferenciado de tireóide com anti-tireoglobulina positivo.
Dra. Rosita Fontes

Dra. Rosita Fontes

Dra Maria Fernanda

Dra. Maria Fernanda

O câncer diferenciado de tireóide (CDT) é a doença endocrinológica maligna mais comum1 e a quarta neoplasia mais frequente no sexo feminino no Brasil2. Esta categoria engloba o carcinoma papilífero, que corresponde a 80% dos casos de CDT, e o carcinoma folicular, que corresponde a 20% deles. O CDT mantém várias características das células foliculares normais, entre elas, a produção da tireoglobulina (Tg), proteína específica da tireóide. Devido à sua especificidade como produto tireoidiano, a Tg é utilizada como marcador tumoral para a evidência de persistência da doença ou do aparecimento de metástases locais ou à distância após o tratamento com cirurgia, acompanhado ou não de ablação com iodo radioativo (Na¹³¹I)³.

De acordo com as recomendações atuais, para a dosagem de tireoglobulina é preconizado o uso de ensaios imunométricos calibrados conforme material de referência certificado (CRM 457)⁴. Recomenda-se também que a dosagem de Tg sempre seja acompanhada da dosagem de anticorpo anti- tireoglobulina (ATG). Este anticorpo pode estar presente em 10 a 30% dos pacientes já tratados para o câncer de tireóide, podendo interferir no ensaio de Tg. O ensaio imunométrico por Quimioluminescência (Qm) para Tg utiliza dois anticorpos, um de fase sólida e o outro marcado com um composto luminescente. Ambos se ligam à molécula de Tg, formando o complexo Ac-Tg- Ac*, o “sanduiche”. Após o procedimento de lavagem do ensaio, é realizada a leitura no equipamento, sendo a quantidade de luminescência proporcional à quantidade de Tg presente na amostra do paciente4. Na presença de anticorpos anti-tireoglobulina, estes se ligam à Tg, impedindo a ligação de um dos anticorpos utilizados no ensaio, não havendo a formação do “sanduíche”, com resultados falsamente baixos. Não existe consenso de quais níveis de ATG possam causar interferência no ensaio de tireoglobulina, portanto, mesmo valores de ATG dentro dos limites de referência podem levar a este tipo de interferência5. Nesses casos é comum que o paciente seja submetido a outros exames, entre eles exames de imagem com doses maiores de Na131I, visando identificar possíveis focos de doença persistente ou recorrente, aumentando o custo, além dos aspectos psicológicos desfavoráveis ao paciente⁶,⁷,⁸. Tal fato justifica a recomendação da American Thyroid Association (ATA) para que métodos de dosagem de Tg que não sofram a interferência dos ATG sejam desenvolvidos e aplicados¹.

Mais recentemente, foi desenvolvida a dosagem de tireoglobulina por espectrometria de massas. Inicialmente, pelo fato da Tg ser uma grande proteína, o material é submetido à uma digestão proteolítica, gerando fragmentos já conhecidos de tireoglobulina⁹. A seguir, os fragmentos de interesse são imunopurificados, analisados por Cromatografia Líquida (LC), e introduzidos no equipamento de Espectometria de Massas em Tandem (MS/MS). Neste equipamento, as moléculas são ionizadas; conduzidas primeiramente a um espectrômetro de massas, que as separa de acordo com a massa/carga elétrica (m/z); a seguir, entram em uma câmara de colisão, seguindo para um segundo espectrômetro de massas, havendo nova separação de acordo de acordo com a massa/carga elétrica¹⁰,¹¹. O princípio desta metodologia, com separação da molécula alvo de acordo com a sua massa/carga, difere do Imunoensaio, onde ocorre uma reação antígeno-anticorpo. Tal fato representa uma vantagem, sendo um método bastante específico, sem interferência dos ATG. Por outro lado, como desvantagem, até o momento, a sensibilidade deste método, em torno de 0,5 ng/mL, é menor que ao da Qm, que apresenta uma sensibilidade funcional inferior a 0,2 ng/mL. Além disto, ainda é um método que apresenta maior tempo de realização e maior custo. Nos últimos anos, vários estudos foram realizados demonstrando a aplicabilidade da Tg por LC-MS/MS¹²⁻¹⁸, mostrando sua utilidade como opção à Qm em casos de acompanhamento de pacientes com CDT e ATG positivos (figura 1). Concluindo, a dosagem de TG por LC-MS/MS tem se apresentado como uma alternativa para avaliação dos níveis reais desta molécula quando anticorpos anti-tireoglobulina estiverem presentes na amostra do paciente.

Figura 1 - Algoritmo para acompanhamento de CDT

Figura 1 - Algoritmo para acompanhamento de CDT

CDT: Carcinoma Diferenciado de Tireoide
*Tg Qm*: Tireoglobulina dosada por quimiluminescência
**ATG: Anti-tireoglobulina positivo [10-30%]
***Tg LC-MS/MS: Tireoglobulina dosada por Cromatografia Líquida e Espectrometria de Massas em Tandem

Referências Bibliográficas:

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2. Instituto Nacional do Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA). Síntese de resultados e comentários: câncer da glândula tireoide. Estimativa 2012: incidência de câncer no Brasil. Disponível em: http://www.inca.gov.br/estimativa/2012. Acesso em: 08 de Outubro de 2015.
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